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Boa noite - Itabira, domingo, 09 de dezembro de 2018  

POLÍCIA
Após um ano de tragédia em Janaúba, obras estão paradas
População convive com dores deixadas por incêndio criminoso e promessas não cumpridas; unidade infantil deveria ser entregue no fim do ano 04/10/2018

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Janaúba
Obras da creche Dona Lindu, no conjunto Dona Lindu, estão paralisadas; prefeitura garantiu conclusão no meio do ano que vem
PUBLICADO EM 04/10/18 - 03h00

São 364 dias desde o último 5 de outubro, quando moradores de Janaúba, no Norte de Minas, viram de perto a maior tragédia da cidade: o incêndio criminoso na Creche Gente Inocente, provocado por Damião Soares dos Santos, de 50 anos, vigia do local. Quatorze pessoas morreram, incluindo dez alunos, três funcionárias e o próprio autor. Ao menos 40 ficaram feridas. Desde então, familiares, amigos e a população do município sofrem, além da dor da perda e das marcas deixadas nos feridos, com o não cumprimento de algumas ações.

Logo após a tragédia, o Ministério da Educação (MEC) anunciou recursos na ordem de R$ 3,7 milhões para a finalização de uma creche, a construção de outra e a colocação de telhado em uma quadra poliesportiva no município. No entanto, na área destinada à Creche Dona Lindu, no Conjunto Dona Lindu, o que se vê é uma obra inacabada. Segundo moradores, as intervenções no local começaram há ao menos quatro anos.

“Tenho três filhos, de 3, 7 e 9 anos, e preciso ir para outro bairro levá-los, sendo que tem essa praticamente na minha porta”, contou a dona de casa Edilaine Dantas, 27. Segundo a jovem, para chegar a pé à creche do filho mais novo, ela gasta cerca de 40 minutos. Quando a prefeitura disponibiliza um ônibus, o garoto segue com outros alunos. “É um descaso com nossos filhos. Cadê o dinheiro que disseram que ia ter?”, reclama.

Sem condições de levar o filho de 2 anos para a creche, a dona de casa Sônia Marques, 31, optou por parar de trabalhar. “Ele fica em casa com os brinquedinhos dele. Com isso, a renda para manter a casa vem só do meu marido, e o orçamento está sempre estourando”, relata.

Problemas. De acordo com o secretário de educação do município, Júlio Tolentino, problemas impediram que as obras, com previsões de conclusões para o fim deste ano, fossem entregues à população. Segundo ele, no Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Dona Lindu,as obras foram interrompidas em julho deste ano.

"Precisava ser refeita toda planilha orçamentária dele, que estava parado há mais de dois anos. Alguns materiais tinham deteriorado, outros foram furtados. Fizemos a nova planilha, que foi autorizada pela Caixa Econômica Federal no início deste ano, a assinatura do início de obra ocorreu em julho, mas a empresa que assumiu o serviço não conseguiu cumprir os prazos. Ela foi descredenciada por insuficiência técnica. Estamos aguardando a nova empresa assumir daqui aproximadamente duas semanas. O cronograma de entrega é para o meio do ano que vem", afirmou. 

Em relação ao Cemei do bairro Santo Antônio será realizada uma construção total da creche. No entanto, de acordo com o secretário, eles precisaram abrir mão do local em que seria construída a unidade, devido o terreno ser muito baixo e poderia ser um ponto de inundação, mesmo que ocorrências de chuva sejam poucas na região. Foi solicitada a mudança de endereço e as obras também serão iniciadas, com previsão de entrega para o primeiro semestre de 2019. Sobre a quadra, Tolentino afirmou que o serviço será realizado na "Quadra Jatobá".

"Esse recurso liberado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação(FNDE)não vem para o município, não entra nas nossas contas. Nós solicitamos a empresa, fazemos as medições de acordo com o planejamento e o dinheiro é liberado para a empresa à medida em que a obra vai andando e os prazos são cumpridos", finalizou.

A reportagem fez contato com o FNDE, mas, até o fechamento da edição, o órgão não havia respondido.

Missa e culto. Nesta sexta-feira (5), dia que marca um ano da tragédia, será realizada às 7h uma missa na igreja de Santa Rita de Cássia. Já às 19h, haverá um culto ecumênico na igreja evangélica Os Evangelistas.

Funcionários denunciam más condições

A reportagem esteve na porta do Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Izabel Maria, no bairro Algodões, mas não foi autorizada a entrar. Funcionários confirmaram informações de que no imóvel há rachaduras, apenas um banheiro para meninos e meninas e não existe bebedouro para as crianças. “Ninguém faz nada. Queremos a solução”, afirmou, sob anonimato, uma pessoa que trabalha no local. O secretário Júlio Tolentino disse que a situação deve ser resolvida no recesso da próxima semana: “Está tudo agendado”.

Sobreviventes de incêndio retomam rotina aos poucos

Com a mochila da Penélope Charmosa, Maria Rita Sousa, 6, reencontra todos os dias alguns amigos que fez na creche Gente Inocente. Desde o início do ano, eles estão na Escola Municipal Américo Soares de Oliveira, a menos de 2 km de onde ocorreu a tragédia. Risonha, ela vê a mãe no fim da aula e conta que o dia na escola foi bom. Ela era uma das alunas da professora Heley, não teve queimaduras, mas inalou fumaça e desenvolveu uma rinite. Precisa tomar remédio e usar soro diariamente.

Além disso, após o incêndio, a garotinha mudou o comportamento. “Ela faz acompanhamento psicológico, mas está muito agitada e desobediente e não quer estudar. Tem medo do escuro. Quando comenta (o assunto), ela conta que viu a tia (Heley) queimada e que não quer morrer desse jeito”, relata a mãe da menina, a dona de casa Rosângela Sousa, 39.

Nesta semana, o coração da mãe está apertado devido à proximidade de um ano da tragédia na creche. “Eu me coloco no lugar das mães que perderam os filhos. Ninguém merece passar por isso”, diz.

Na saída da escola, a reportagem encontrou outro aluno de Heley. Ele teve 10% do corpo queimado e ainda faz tratamento na capital. “Sempre foi tímido, mas, após o ataque, quase não fala com quem não conhece”, conta a mãe dele, que pediu para não ter o nome divulgado.

Lembrança. Aos poucos, os moradores de Janaúba tentam retomar a rotina. “Esquecer nós não vamos. Nunca. A dor do outro, de cada mãe, é a minha dor”, diz Rosângela Sousa, moradora de Janaúba. 

 


 

 

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